quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Demissexual|#AsexualAwarenessWeek


Há coisa de duas semanas foi a Asexual Awareness Week, que em Portugal não se ouviu falar sequer mas que pelo mundo da internet foi bastante divulgado. Eu como sei mais de informação pela internet do que propriamente pela tv ou outras fontes de informações mais tradicionais quis vir falar deste assunto aqui, e talvez ajudar outras pessoas que se sintam desajustadas.
Não há nada na minha vida que seja tão estranho de falar em voz alta como aquilo que vou dizer aqui. Tanto quando digo para mim mesma, como quando digo aos outros. Nunca é confortável.
Primeiramente, é necessário definir o que são pessoas alossexuais e pessoas demissexuais. Ora demissexuais são pessoas que só são capazes de desenvolver atracção sexual por uma pessoa só depois de de ter estabelecido uma relação. Não é uma questão de preferires relacionar-te com pessoas que conheces bem, mas precisares disso para estabelecer um contacto mais primário. Os alossexuais são pessoas que não precisam desses requerimentos para se sentirem atraídos por alguém.
Em termos crus: ser demissexual significa que eu nunca olhei para uma pessoa e pensei: "Era capaz de me envolver com aquela pessoa!".
Nas poucas vezes que isso quase aconteceu, pareceu a coisa menos natural possível. Como se eu não estivesse ali quando isso acontecia, como visse aquilo de cima. Parece que tudo o que me ensinaram sobre atracção era uma mentira universal, como todos soubessem falar alemão e eu nem sabia o que significava danke! Parece que o que toda agente achava banal me impedia de ser compreendida, cingindo-me uma vida bastante solitária.
Desde que descobri que existia esta palavra, que me senti identificada, e pensei que me faria sentir menos insana do que me senti nos primeiros vinte e dois anos de vida. Mas surpresa, isso não acontecceu. O desconforto não desapareceu. Porque não ser alossexual numa sociedade extremamente alossexual é essencialmente desconfortável. É como se a forma de te relacionares com as pessoas te tornasse julgadora de como as outras pessoas se relacionam. E não é isso.
É só que empurrarem-te técnicas e suposições alossexuais que não se aplicam a mim de todo, é extremamente cansativo. Nos dias normais eu não quero saber disso para nada, porque sei que todos somos diferentes mas há normas que a sociedade espera que todos sigamos. Mas em dias menos bons, sinto-me sem chão. É uma sensação horrível não conseguires agir de forma a conseguires relacionar-te com os outros e ao mesmo tempo ser honesta contigo própria. Como se houve um precipício entre mim e o resto das pessoas que não vêm o mundo da mesma forma que eu vejo. E só encontro algum conforto quando tenho alguém que experiência o mundo da mesma maneira que eu. E o medo que eu tenho de a forma como ajo não seja suficiente para a pessoa de quem gosto e que provavelmente é alossexual, como a maioria o é.
Eu não consigo mudar quem sou, ainda que fosse muito mais fácil ser alossexual, mas esta angústia que sinto talvez mudasse se a sociedade não me empurrasse para uma determinada conduta sexual que não me contempla. Talvez acalmasse este desconforto.
Mas  a atracção sexual é vista como algo tão natural que pergunto-me se esta suposta alternativa a essa conduta seja algo que possa existir. Se não serão coisas da minha cabeça. Mas não pode ser só coisas da minha cabeça se mais gente se sente assim não é?

2 comentários

  1. "Mas não pode ser só coisas da minha cabeça se mais gente se sente assim não é?"

    Com efeito!

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    1. É bom saber que existem mais pessoas por aí! ;)

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Maira Gall